Faca amolhada

O silêncio era cortante de fato. Depois de algum álcool e alguma fumaça, quê dizer? Ambos esperavam do outro o que havia na ponta da língua, na ponta da faca metálica e reluzente que deslizava por uma corda de tripa de porco no alpendre escuro e sucinto. Minimalista, cru e nu.

Não havia mais ninguém além dos dois. Alhures jaziam em suas respectivas camas as companhias entorpecidas da noite findada. Que noite. Que nada. “Que cabelo… cheiro encaracolado”. A faca não dizia nada mas estava pronta para cortar; tortamente que fosse.

Movimento. Aproxima-se da moça cheirolada – meio esfumacenta e enrolada; exalando à lenha, cerveja e pensamentos dicotômicos multi-facetados-coloridos-efêmeros que passavam pela sinopse da queratina de seu cachos negros, roxos, azuis. Naturalmente encaixa suas coxas nas dela. coxa-macho/cocha-fêmea/cocha-macho/coxa-fêmea. A mão esquerda pairando gentilmente sobre a coxa-fêmea desprotegida – a última de suas duas coxas; a que não possui uma coxa-macho de ambos lados.

Seu corpo nu por debaixo da roupa, animal e feminino é como um rio, uma nascente, de água e de arrepio, pestanejando ensaia uma interjeição negativa; positiva que fosse. Não.

Além da mão protetora da coxa, eleva a outra na nuca de emaranhado elixir. Amarra alguns fios em torno da mão cabeluda de modo que os pelos se confundem numa sinestesia de sabor e fragrância. Dessa vez não é um toque gentil, puxa na medida certa – entre a dor e o prazer. Agora o rio é não-navegável, o volume de água aumenta e é perigoso praticar a natação em suas águas. Com a mesma mão separa-se o cabelo do pescoço, branco, alvo de investidas mentais. O alpendre vai gradativamente anuviando-se e despindo-se.

A ocasião não poderia ser melhor; a barba tendo sido feita apenas há três dias, teria o efeito desejado. Seu queixo, não tão masculino, nem tão feminino – um tanto redondo porém alongado, apontando seu objetivo – rasparia na alvidez tenra na medida certa, causando o efeito desejado; dor e prazer. Feito. Passado a parte entre o final do trapézio e o começo do lóbulo da orelha esquerda, tudo que se ouvia além do atrito da pele e do rio passando era “hmm”.

O queixo áspero e carinhoso dá lugar à língua ensalivada e redonda. A medida que subia a língua, o alpendre ia ficando cada vez mais nu, desprotegido e encharcado. Bolinhas rosas da ponta da língua roçavam pelo ouvido-fêmea gentilmente, lavando alguns poucos – talvez três, quinze – fios de cabelos, deixando os retos feito o queixo do executor. A faca cintilante no alpendre agora era fosca e submersa na água nunca antes tão abundante do rio. Oceano.

- Acho que devemos parar por aqui.

3 respostas para Faca amolhada

  1. Cláudia A. disse:

    você é um gênio, um gênio lindo.

  2. Lívia disse:

    Adorei a narrativa!

  3. Mariana disse:

    Hehehe! Bacana! Adorei mesmo!
    :D

    Um beijo, querido!

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