Compulsoriamente pintava o fundo branco recortado em azul, o artista. Levava o tempo necessário em cada parte, cada passada do instrumento calibrado era pensada por interíns e hiatos temporais mirabolantes, de modo que era longuíssima a duração da criação. E ainda assim a cada mísero ato realizado, um regozijo ricocheteava nos fundilhos de sua cabeça; as vezes pfiu! as vezes pfto! Sua feição mudava em todos esses pequenos – apesar de longos – momentos e assumia feições de um príncipe dinamarquês, cujo nome havia de ser Frederico ou Henrique, evidente. Cabelo moreno liso estilo peruca em que as pontas caem perto das orelhas e no meio da tez-ta, obesidade leve do tipo que há em crianças responsável com uma porcentagem – que alguns jornalistas chamariam de significativa – significativa pela fofura a elas atribuído mas que desaparecerá ao chegar a adolescência e ilustrará contornos e recheios de uma pessoa saudável. Olhos cinzas-esverdeados de preferência.
O que havia de ser segredo era o anexo do prazer, dicotomicamente a endorfina com vazão gigantesca era alimentada por dois fluentes: o ato pelo ato – um tanto canibalístico mas não há mais tanta cara feia com isso nesses tempos – e a auto-apreciação e reabastecimento sanguíneo nas veias azuis do ego. Na veia, percebe? Disso notava-se a roxidão, mistura de carne azul e sangue nobre; viva: roxo, preto e nos limites das gradações cromáticas, um azul vivo movimenta-se e retém-se, esquenta e esfria mas nunca recomeça o ciclo, estagna.
A sequência era previsível e deletéria: príncipe dinamarquês morto, cigarro aceso. Aquele homem não consegue criar sem vangloriar-se e deleitar-se consigo próprio (afinal os cigarros estão caros, só se ascende um se muito importante ou recompensante¹), com suas veias gritando “socorro” ironicamente e a lua de minguante migrando à zombeteira e observadora; de pecados e brilhantismos, nessa ordem.
O problema de comportar-se assim é a existência dialética entre a estafa imatura, a ejaculação precoce mental e a saturação dissimulada do ego – que se confundem. Um estaciona feito cavalo paraguaio na insuficiência incerta de um “aquém” e a outra satisfaz o pedestal do louro da vitória até cabalísticamente dizer chega – em mantra: chega; até pedir
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¹ A relação de recompensa de um cigarro funciona da seguinte forma: ao fumar um cigarro quando se levanta, ou após o almoço há um sentimento de missão comprida, de satisfação, que só não é maior do que o cigarro pós-foda. Mas há aqueles se fuma por compulsão, seja por estar conversando com alguém que fuma e essa ação é espelhada, seja por estar bêbado ou bebendo. Esse segundo tipo de cigarro deve ser evitado dado o preço do menino; cada momento há de ser guardado para um cigarro.
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Escrito por xanda